#160: A nova jornada de venda do imóvel

As diferentes abordagens na automação do funil

ABERTURA

O capital de risco está financiando simultaneamente duas visões diferentes para o imobiliário: uma que usa a IA para fortalecer o modelo atual e outra desenhada para mudar a intermediação. Qual será a vencedora? Analisamos essa bifurcação na edição de hoje.

Trazemos também nossa ótica de como interpretar os dados da recente pesquisa do Quinto Andar sobre o que busca o comprador do imóvel.

E fechamos analisando o volume massivo de investimentos que busca transformar a Arábia Saudita no maior canteiro de obras do planeta.

Boa leitura!

Na edição de hoje:

  • 🤖 As duas teses de IA que disputam a jornada do imóvel: otimizar ou romper com a intermediação tradicional.

  • 🏠 O erro de escala: por que $75% dos brasileiros moram em casas, e o mercado insiste na verticalização.

  • 🇸🇦 A meta da Arábia Saudita de US$ 1,25 trilhão e a busca ativa pelo "Cristiano Ronaldo" da construção.

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#1

A transformação da jornada de venda do imóvel

O anúncio da rodada de R$ 17 milhões da Morada AI, no Brasil, e os R$ 32 milhões captados pela americana Ridley deixam claro:

A jornada de venda do imóvel está passando por uma reescrita profunda. Mas não uma reescrita única.

São duas teses diferentes de como a IA deve operar no mercado imobiliário – uma que empodera os atores tradicionais, outra que questiona a própria estrutura da intermediação.

IA como eficiência para os players do setor

A Morada AI representa a tese da otimização. Ela não tenta reinventar o mercado; tenta remover as fricções que o tornam lento, caro e ineficiente, especialmente no mercado primário.

O que entrega

  • Captação e qualificação de leads via chatbots inteligentes.

  • Personalização baseada em dados integrados.

  • Automação do crédito, reduzindo rejeições decorrentes de análise manual.

  • Soluções de financiamento para acelerar aprovações e reduzir burocracia.

Por que importa

Fundada em 2021 como spin-off da Kunumi, a Morada já enviou +50 milhões de mensagens e atendeu 2 milhões de potenciais compradores.

Hoje atende cerca de 200 incorporadoras em 17 estados, incluindo Direcional, Patrimar/Novolar e Emccamp – um alcance que mostra aderência real à dor operacional das empresas.

O ponto central é simples: mesmo em um mercado onde 88% das empresas dizem usar IA, poucas transformam isso em escala consistente.

A Morada tenta resolver justamente esse gap.

IA como ruptura do modelo de negócio 

Se a Morada reforça a cadeia existente, a Ridley opera o movimento inverso: ela tenta retirar o intermediário da equação.

A premissa é dura: as comissões de 6% nos EUA custam US$ 100 bilhões ao ano aos vendedores. E a IA torna possível questionar esse arranjo.

Como funciona

  • Plataforma end-to-end para vender imóveis residenciais.

  • IA guia a preparação, precificação, listagem e suporte legal.

  • Chat inteligente, insights personalizados e analytics preditivos.

  • Modelos de monetização flat – de US$ 49 a US$ 3.499.

A evidência do modelo

  • Economia média: US$ 43.639 por transação.

  • 57 imóveis vendidos desde julho de 2024, em 33 dias, com 98,3% de fechamento no preço pedido.

  • US$ 4,6 bi em leads e US$ 350 mi em imóveis listados.

IA como substituto parcial da corretagem, com suporte humano opcional e um marketplace centrado no consumidor.

Duas empresas, duas abordagens, um mesmo vetor

Apesar das semelhanças tecnológicas – IA generativa, chatbots, analytics, personalização – as teses estratégicas divergem:

Morada AI → Otimização (B2B)

  • Melhora o desempenho do ecossistema existente.

  • Atua na qualificação, conversão e análise de crédito.

  • Amplia eficiência e previsibilidade para incorporadoras.

  • Focada no mercado primário brasileiro.

Ridley → Disrupção (B2C)

  • Redesenha a jornada de venda para o consumidor.

  • Elimina comissões e reduz custo transacional.

  • Acelera o ciclo de venda com IA como copiloto.

  • Questiona a estrutura agent-centric tradicional.

Ambas captaram capital significativo validando a tese de que IA aplicada ao imobiliário já não é experimento, mas movimento de mercado.

O eco do passado: quando as imobiliárias digitais prometeram o “flat fee”

O movimento atual lembra um ciclo anterior: a ascensão das imobiliárias digitais e das primeiras tentativas de modelos flat fee em PropTechs, tanto no Brasil quanto lá fora, como foi o caso da Purple Bricks.

Naquela época, a tese era parecida: reduzir a comissão, digitalizar a jornada e substituir parte do trabalho de corretagem por processos online.

A ascensão e queda da Purple Bricks

A Purplebricks surgiu em 2014 no Reino Unido como uma agência imobiliária digital inovadora, prometendo revolucionar o setor com um modelo de taxa fixa (flat fee), eliminando as comissões tradicionais de 3-5% e oferecendo serviços end-to-end via app – desde valuation até listagem em portais como Rightmove

Atraiu investidores iniciais e impulsionou um crescimento explosivo, alcançando 20% de market share em vendas online até 2017 e um valuation de £1,3 bilhão na bolsa de Londres. 

Sua ascensão foi alimentada por uma demanda por transparência e economia em um mercado fragmentado, escalando para mais de 400.000 listagens anuais e expandindo para Austrália e EUA, posicionando-se como pioneira no PropTech ao desintermediar corretores locais. 

No entanto, a queda veio rapidamente devido a custos operacionais elevados (suporte humano e marketing consumiam 70-80% da receita), baixa conversão de leads (apenas 10-15%) e vulnerabilidades regulatórias, agravadas pela pandemia de COVID-19 em 2020, que reduziu transações em 50% e gerou prejuízos de £45 milhões, levando a demissões em massa e queda de 90% nas ações

Adquirida em 2021 pela Strike por £12 milhões, a Purplebricks foi arrastada para o colapso quando a controladora faliu em 2023 por dívidas de US$ 100 milhões, suspendendo operações no UK e ilustrando as armadilhas da disrupção sem IA robusta para automação total – uma lição para startups como Ridley ou Morada AI.

O que aconteceu?

  • As plataformas digitalizaram, mas não automatizaram.

  • Faltava capacidade de personalização em escala.

  • Custos de aquisição eram altos demais para sustentar o flat fee.

  • O consumidor ainda precisava de orientação humana – que era cara.

  • A transação imobiliária permaneceu complexa, irregular e pouco padronizada.

Em outras palavras: A tecnologia estava pronta para digitalizar, mas ainda não estava pronta para decidir, orientar, qualificar ou negociar – funções que a IA generativa começa, agora, a desempenhar.

O que muda desta vez?

A diferença é que IA não só executa tarefas – ela estrutura a jornada, interpreta dados, conduz conversas, resolve objeções e reduz drasticamente o custo marginal de atender um cliente.

O flat fee do passado dependia de call centers e automação básica.
O flat fee atual depende de inteligência computacional.

Não se trata de ter razão – mas sim sobre possibilidade

Morada e Ridley não competem; elas revelam o leque de caminhos possíveis.

Uma IA que melhora o modelo.
Outra que substitui partes do modelo.

A pergunta estratégica que fica para executivos, investidores e operadores do setor é:

Você está usando IA para defender o mercado como ele é – ou para explorar o mercado como ele pode ser?

#2

O que a pesquisa do QuintoAndar nos diz sobre o óbvio

A pesquisa "Retratos do Morar", do QuintoAndar/Ipsos, circulou com força na última semana. Ela não trouxe grandes surpresas, mas trouxe dados que confirmam algumas cegueiras estratégicas do setor.

O primeiro ponto é o paradoxo da casa.

Enquanto o mercado institucional foca massivamente na verticalização, 75% dos brasileiros moram em casas.

Tratar o modelo horizontal como um nicho é um erro de escala. O Brasil mora em casa, e existe uma demanda reprimida por produtos horizontais com governança profissional.

O segundo ponto derruba um mito: a Geração Z não quer comprar imóveis.

Ao contrário da narrativa de que os jovens de 18 a 28 anos querem apenas viver de assinatura, 50% deles manifestam o desejo de compra.

O problema não é a falta de vontade, é a falta de viabilidade financeira e de produtos desenhados para esse momento de vida.

A curva de adoção dos novos modelos de moradia mostra também como suas preferências estão em diferentes estágios.

No Radar Pro dessa semana, mergulhamos nos dados da pesquisa para entender o que realmente move a decisão de compra, como a pauta climática influencia (ou não) o cliente e onde estão as oportunidades que o mercado ainda não capturou.

Clique aqui para ler a análise completa

#3

Arábia Saudita: O Canteiro de Obras de US$ 1,25 Trilhão

Você já deve ter ouvido falar da Liga Saudita e da Copa de 2034. Mas a verdadeira revolução no Reino não está no futebol – está no concreto.

Uma onda recente de investimentos em construtechs locais (como os US$ 28M na WakeCap e os US$ 17M na BRKZ) é apenas um sinal: a construção civil se tornou o pilar estratégico da transição econômica saudita.

A escala é inédita: US$ 1,25 trilhão em projetos, com o mercado imobiliário projetado para crescer a um CAGR de 8,7% até 2030 – um ritmo impossível em mercados maduros.

Mas não é só dinheiro de petróleo.

Existe uma demanda estrutural explosiva: 70% da população tem menos de 35 anos, e o governo quer elevar a taxa de propriedade para 70% até 2030.

Para isso, criaram o Programa Sakani, um modelo sofisticado de habitação acessível que já entregou 500 mil unidades e integra critérios ESG, blockchain e parcerias privadas.

Mas esse boom tem um custo. A inflação de materiais, a escassez de 500 mil trabalhadores e a complexidade regulatória criam riscos reais.

No Investor Track dessa semana, abrimos os números que traduzem esse momento (yields de até 12%, valorização de escritórios em 31%) e discutimos a oportunidade para quem tem expertise técnica: o governo saudita busca o "Cristiano Ronaldo" da construção.

Clique aqui para ler a análise completa

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